Perco-me na solidão dos tempos imemoriais que revivo ao sabor longínquo da memória, com se as fotografias dos momentos passados me viessem atormentar o espírito e perturbar a calma.
Ergo-me num voo, planando nos céus acima do horizonte das lembranças, percorrendo-as a todas num breve relâmpago.
Pergunto-me: O que é que foi dos dias e das memórias que perdi ao longo do caminho. Para que buraco misterioso da consciência se evadiram? Perdi-os de mim, ou foram eles que se afastaram de mim?
Aonde estão as tardes infinitas, junto ao rio Tejo, nas quais o plácido sol se banhava nas águas, acabando por afogar-se por detrás do horizonte.
Procuro novas formas de ser, rasgar novas entidades de mim, por entre o espartilho da multiplicidade das máscaras e das personalidades.
Acho que conseguirei insuflar uma inspiração e reinventar este ser que sou, dotá-lo de novas características e ensinar-lhe um novo voo.
Uma coreografia de voos picados e rápidos, com novas asas e novas rotas, rumo a Calecut ou ao Botswana, a novas paragens exóticas, perdidas de todos os mapas conhecidos.
Açafrão, cominhos e pimenta em conjunto com outras especiarias funcionam como um bálsamo de sabores para a avidez de sensações em que me perco.
Neste estar dentro, do outro lado do espelho, perco-me e gozo a minha própria perdição. É com esta visão interior que percorro as vastas fronteiras, desde os moinhos de oração até ao leito de Leviatã.
E é esta caminhada interior que serve de leme, rumo e rota à exteriorização da minha peregrinação.
Não procuro ser outro que não ser eu próprio.
Mas para ser eu próprio era preciso que encontrasse o centro de mim mesmo e nele fortemente fundeasse, como se fosse navegar sem bússola, andando em espirais cada vez mais amplas, a partir desse centro imutável.
A minha jangada é composta por dois troncos sobrepostos, relativamente perpendiculares e não sei se desço ou subo o rio. Mas sei estar amarrado a estas duas traves mestras, com quatro pontas descrevendo os quatro princípios cardeais, com as quatro direcções em que me divido esquartejado, em carne e matéria.
Contemplo os olhos vazados, e os ossos de uma qualquer caveira perdida na noite dos tempos, como destino e como paragem. Fico tentado em comprar um bilhete para uma segunda volta, mas estou indeciso entre qual das direcções seguir. Vou para baixo, onde os dias são fogosos comos as paixões, ou para cima, onde tudo é paz e harmonia.
Tendo os céus e os infernos dentro de mim, e vomitando o morno torpor do purgatório, revolto-me contra a própria escolha. Sigo em todas direcções, simultaneamente, acabando por desquadriplicar-me em todas.
Não pergunto sequer a razão ou o porquê da minha insólita decisão. Não quero saber, isso já não importa, ou, se importa, quero que se dane, e lixe e tudo o mais a que se possa condenar.
Quero sentir o sal exposto no ar marítimo a beijar loucamente os Zéfiros, numa orgia de furor.
Quero sentir o Sol a furar a valsa da vida, e as Salamandras saltando por entre as labaredas daquilo que são.
Quero sentir a Jangada a afundar-se no leito suave e melancólico onde reinam os da linhagem dos Kobolt.
Quero sentir o Mar torneando, ora doce, ora furiosamente, todos os percursos de todas as Suas Ondinas.
O Círculo está já traçado a preceito, com compasso, régua e esquadro. Mas tenho a impressão que não vou fazer trazer mais nada para esta dimensão.
Da Invocação do canto do Cisne Sagrado ou Pelicano, trouxe apenas o consolo e sustento para seus sete filhos. Ora já se sabe que é meia-noite, vou beber um JB que é uma pólvora fulminante.
O Venerável diz estar tudo coberto, mas não sabe estar de facto descoberto. A trina chama não alumia mais à luz do dia. Perdeu a capacidade de dissipar as trevas. O bento Altar já está desconsagrado. Não há quem note, nem mais nada a fazer neste momento.
Para mim é sempre meia noite, ainda que esteja o sol no zénite. Vou partir, por um lado, por causa do cânone 1313, por outro, porque nada tenho aqui que fazer, em pranchetas que perderam a razão de ser.
.
. .
Dizes-me que vou ficar com ela, mas duvido seriamente.
O silêncio é o maior dos muros.
A compreensão das fronteiras que se estendem entre duas pessoas é talvez o caminho mais curto para a compreensão de dois caminhos que se apartam, como duas circunferências tangentes, afastam-se, tocam-se e separam-se novamente.
Porque é que não acreditas numa separação? Por haver uma ausência de discussão, de intensidade? Será? Mas é precisamente por isso, que tudo termina, por ausência de interesse, por já nem sequer valer a pena, pelo vácuo que se instala de armas e bagagens.
Como se fosse um sistema solar os planetas afastam-se, e quanto mais se afastam, menos se faz sentir a força da gravidade que mutuamente os atrai. Os corpos celestes são como os outros, “(...)em cima como em baixo(...)”.
Ergo-me num voo, planando nos céus acima do horizonte das lembranças, percorrendo-as a todas num breve relâmpago.
Pergunto-me: O que é que foi dos dias e das memórias que perdi ao longo do caminho. Para que buraco misterioso da consciência se evadiram? Perdi-os de mim, ou foram eles que se afastaram de mim?
Aonde estão as tardes infinitas, junto ao rio Tejo, nas quais o plácido sol se banhava nas águas, acabando por afogar-se por detrás do horizonte.
Procuro novas formas de ser, rasgar novas entidades de mim, por entre o espartilho da multiplicidade das máscaras e das personalidades.
Acho que conseguirei insuflar uma inspiração e reinventar este ser que sou, dotá-lo de novas características e ensinar-lhe um novo voo.
Uma coreografia de voos picados e rápidos, com novas asas e novas rotas, rumo a Calecut ou ao Botswana, a novas paragens exóticas, perdidas de todos os mapas conhecidos.
Açafrão, cominhos e pimenta em conjunto com outras especiarias funcionam como um bálsamo de sabores para a avidez de sensações em que me perco.
Neste estar dentro, do outro lado do espelho, perco-me e gozo a minha própria perdição. É com esta visão interior que percorro as vastas fronteiras, desde os moinhos de oração até ao leito de Leviatã.
E é esta caminhada interior que serve de leme, rumo e rota à exteriorização da minha peregrinação.
Não procuro ser outro que não ser eu próprio.
Mas para ser eu próprio era preciso que encontrasse o centro de mim mesmo e nele fortemente fundeasse, como se fosse navegar sem bússola, andando em espirais cada vez mais amplas, a partir desse centro imutável.
A minha jangada é composta por dois troncos sobrepostos, relativamente perpendiculares e não sei se desço ou subo o rio. Mas sei estar amarrado a estas duas traves mestras, com quatro pontas descrevendo os quatro princípios cardeais, com as quatro direcções em que me divido esquartejado, em carne e matéria.
Contemplo os olhos vazados, e os ossos de uma qualquer caveira perdida na noite dos tempos, como destino e como paragem. Fico tentado em comprar um bilhete para uma segunda volta, mas estou indeciso entre qual das direcções seguir. Vou para baixo, onde os dias são fogosos comos as paixões, ou para cima, onde tudo é paz e harmonia.
Tendo os céus e os infernos dentro de mim, e vomitando o morno torpor do purgatório, revolto-me contra a própria escolha. Sigo em todas direcções, simultaneamente, acabando por desquadriplicar-me em todas.
Não pergunto sequer a razão ou o porquê da minha insólita decisão. Não quero saber, isso já não importa, ou, se importa, quero que se dane, e lixe e tudo o mais a que se possa condenar.
Quero sentir o sal exposto no ar marítimo a beijar loucamente os Zéfiros, numa orgia de furor.
Quero sentir o Sol a furar a valsa da vida, e as Salamandras saltando por entre as labaredas daquilo que são.
Quero sentir a Jangada a afundar-se no leito suave e melancólico onde reinam os da linhagem dos Kobolt.
Quero sentir o Mar torneando, ora doce, ora furiosamente, todos os percursos de todas as Suas Ondinas.
O Círculo está já traçado a preceito, com compasso, régua e esquadro. Mas tenho a impressão que não vou fazer trazer mais nada para esta dimensão.
Da Invocação do canto do Cisne Sagrado ou Pelicano, trouxe apenas o consolo e sustento para seus sete filhos. Ora já se sabe que é meia-noite, vou beber um JB que é uma pólvora fulminante.
O Venerável diz estar tudo coberto, mas não sabe estar de facto descoberto. A trina chama não alumia mais à luz do dia. Perdeu a capacidade de dissipar as trevas. O bento Altar já está desconsagrado. Não há quem note, nem mais nada a fazer neste momento.
Para mim é sempre meia noite, ainda que esteja o sol no zénite. Vou partir, por um lado, por causa do cânone 1313, por outro, porque nada tenho aqui que fazer, em pranchetas que perderam a razão de ser.
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Dizes-me que vou ficar com ela, mas duvido seriamente.
O silêncio é o maior dos muros.
A compreensão das fronteiras que se estendem entre duas pessoas é talvez o caminho mais curto para a compreensão de dois caminhos que se apartam, como duas circunferências tangentes, afastam-se, tocam-se e separam-se novamente.
Porque é que não acreditas numa separação? Por haver uma ausência de discussão, de intensidade? Será? Mas é precisamente por isso, que tudo termina, por ausência de interesse, por já nem sequer valer a pena, pelo vácuo que se instala de armas e bagagens.
Como se fosse um sistema solar os planetas afastam-se, e quanto mais se afastam, menos se faz sentir a força da gravidade que mutuamente os atrai. Os corpos celestes são como os outros, “(...)em cima como em baixo(...)”.



