Wednesday, September 21, 2005

Perco-me na solidão dos tempos imemoriais que revivo ao sabor longínquo da memória, com se as fotografias dos momentos passados me viessem atormentar o espírito e perturbar a calma.

Ergo-me num voo, planando nos céus acima do horizonte das lembranças, percorrendo-as a todas num breve relâmpago.

Pergunto-me: O que é que foi dos dias e das memórias que perdi ao longo do caminho. Para que buraco misterioso da consciência se evadiram? Perdi-os de mim, ou foram eles que se afastaram de mim?

Aonde estão as tardes infinitas, junto ao rio Tejo, nas quais o plácido sol se banhava nas águas, acabando por afogar-se por detrás do horizonte.

Procuro novas formas de ser, rasgar novas entidades de mim, por entre o espartilho da multiplicidade das máscaras e das personalidades.
Acho que conseguirei insuflar uma inspiração e reinventar este ser que sou, dotá-lo de novas características e ensinar-lhe um novo voo.

Uma coreografia de voos picados e rápidos, com novas asas e novas rotas, rumo a Calecut ou ao Botswana, a novas paragens exóticas, perdidas de todos os mapas conhecidos.

Açafrão, cominhos e pimenta em conjunto com outras especiarias funcionam como um bálsamo de sabores para a avidez de sensações em que me perco.

Neste estar dentro, do outro lado do espelho, perco-me e gozo a minha própria perdição. É com esta visão interior que percorro as vastas fronteiras, desde os moinhos de oração até ao leito de Leviatã.

E é esta caminhada interior que serve de leme, rumo e rota à exteriorização da minha peregrinação.

Não procuro ser outro que não ser eu próprio.

Mas para ser eu próprio era preciso que encontrasse o centro de mim mesmo e nele fortemente fundeasse, como se fosse navegar sem bússola, andando em espirais cada vez mais amplas, a partir desse centro imutável.

A minha jangada é composta por dois troncos sobrepostos, relativamente perpendiculares e não sei se desço ou subo o rio. Mas sei estar amarrado a estas duas traves mestras, com quatro pontas descrevendo os quatro princípios cardeais, com as quatro direcções em que me divido esquartejado, em carne e matéria.

Contemplo os olhos vazados, e os ossos de uma qualquer caveira perdida na noite dos tempos, como destino e como paragem. Fico tentado em comprar um bilhete para uma segunda volta, mas estou indeciso entre qual das direcções seguir. Vou para baixo, onde os dias são fogosos comos as paixões, ou para cima, onde tudo é paz e harmonia.

Tendo os céus e os infernos dentro de mim, e vomitando o morno torpor do purgatório, revolto-me contra a própria escolha. Sigo em todas direcções, simultaneamente, acabando por desquadriplicar-me em todas.

Não pergunto sequer a razão ou o porquê da minha insólita decisão. Não quero saber, isso já não importa, ou, se importa, quero que se dane, e lixe e tudo o mais a que se possa condenar.

Quero sentir o sal exposto no ar marítimo a beijar loucamente os Zéfiros, numa orgia de furor.

Quero sentir o Sol a furar a valsa da vida, e as Salamandras saltando por entre as labaredas daquilo que são.

Quero sentir a Jangada a afundar-se no leito suave e melancólico onde reinam os da linhagem dos Kobolt.

Quero sentir o Mar torneando, ora doce, ora furiosamente, todos os percursos de todas as Suas Ondinas.

O Círculo está já traçado a preceito, com compasso, régua e esquadro. Mas tenho a impressão que não vou fazer trazer mais nada para esta dimensão.

Da Invocação do canto do Cisne Sagrado ou Pelicano, trouxe apenas o consolo e sustento para seus sete filhos. Ora já se sabe que é meia-noite, vou beber um JB que é uma pólvora fulminante.

O Venerável diz estar tudo coberto, mas não sabe estar de facto descoberto. A trina chama não alumia mais à luz do dia. Perdeu a capacidade de dissipar as trevas. O bento Altar já está desconsagrado. Não há quem note, nem mais nada a fazer neste momento.

Para mim é sempre meia noite, ainda que esteja o sol no zénite. Vou partir, por um lado, por causa do cânone 1313, por outro, porque nada tenho aqui que fazer, em pranchetas que perderam a razão de ser.
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Dizes-me que vou ficar com ela, mas duvido seriamente.
O silêncio é o maior dos muros.
A compreensão das fronteiras que se estendem entre duas pessoas é talvez o caminho mais curto para a compreensão de dois caminhos que se apartam, como duas circunferências tangentes, afastam-se, tocam-se e separam-se novamente.
Porque é que não acreditas numa separação? Por haver uma ausência de discussão, de intensidade? Será? Mas é precisamente por isso, que tudo termina, por ausência de interesse, por já nem sequer valer a pena, pelo vácuo que se instala de armas e bagagens.
Como se fosse um sistema solar os planetas afastam-se, e quanto mais se afastam, menos se faz sentir a força da gravidade que mutuamente os atrai. Os corpos celestes são como os outros, “(...)em cima como em baixo(...)”.

Tuesday, September 13, 2005

Cresce como um vórtice. De um furacão, em espiral.

Como se fora a rebentação nas rochas rendilhadas de espuma branca e alva.
O frio tórrido e o calor gélido atormentam as terminações nervosas da alma, incessante e repetidamente, flagelando o meio, com os extremos.
Tudo é rompante e tempestade, invadindo a bonança.
Por entre o silêncio, para além das portas metálicas do elevador.

Explosão de feixes de luz e irisdiscência.
Sopro quente de um braseiro, com o calor concentrado de mil desertos focados num único ponto, como um sulco que alastra por entre os milhares de células que compõem este sepulcro que diariamente se decompõe.

É esta imagem que incendeia: - O escarlate em contraste com a inocência. O estilete aguçado e mortífero. – Não se consegue resistir. Nem ao jorrar do sangue quente, nem ao fundo pétreo e gelado,
Vejo olhos que prometem todos os paraísos numa só perdição. Cordeiros brancos níveos, depostos em bandejas de dor, para remissão duma qualquer coisa que já nem sei.
Sinto já a candura da fina fria lâmina, como se fosse Dâmocles. A entrar insidiosa, nos músculos desatentos, até ser tarde. Tarde demais...
E sinto o bombear enrubescendo as faces que queimam de ardor. A tensão e os músculos perdidos debaixo da pele junto à jugular.

Tudo é abismo e tontura. Como látego em carne esfacelada, que insiste por entre a papa esponjosa da carne e tendões.
Perdição total ou loucura absoluta.
Um apocalipse de toda a moralidade, para além de todo e qualquer conceptualização de moral.

Dão-se-me os dados, todos. Em voltas perdidas, com números sem sentido. Os algarismos todos invertidos, numa roleta russa, com todas as balas na câmara.
E eu não encontro nenhum nexo, mas afogo-me na maciez do veludo que me estrangula, lenta e deliciosamente.

Inocula-se-me no sistema, o desejo. Como se fosse um qualquer veneno que relaxa os músculos da moralidade, enquanto atordoa e mata, pouco a pouco. Numa orgia de dissenção que me enebria até à rotura.
E eu nem sequer me importo, bem antes pelo contrário. Até o desejo, como um pulmão deseja a sua dose diária de monóxido de carbono e alcatrão.

Vejo-te repetidamente. Com a cara da Inocência, avançando com um brilho luciferino em torno de toda a tua aura. Passo a passo, no Gabinete onde vi, demasiadas vezes, demasiados jogos, de sombras e redes, das Lojas tenebrosas. Pelo menos a ti não te é dirigido o :” Et tu Brutus?”
Defendes aquela que está suspensa na Guerra entre o Fogo e a Água. A solução encontra-se é claro do ponto de vista simbólico na água ardente ou vinho, a súmula do Fogo e da Água. Ou dito de outra forma em Melchizedek, mas isso implicava que tivesses um verdadeiro conhecimento bíblico, o que até nem é o caso, e é pena.

Sei que não és minha. Sei que em parte, és minha. Já não sei se o não virás a ser. Tudo depende do intrincado tabuleiro de xadrez a branco e preto que é a vida. Isso não me parece muito importante, mas é fundamental. O resto não passa de um esquema de autoprotecção e autosabotagem.

De resto, às vezes sonho.
Juro que sonho.
Em praias distantes e abençoadas longe de todas as confusões, e em édens perdidos nos tempos.
Além da dor, do sofrimento, da penumbra.
Sonho em areais brancos, a perder de vista, e a fundirem-se com a linha do horizonte.
Às vezes, mas mesmo só às vezes, penso. Em silêncio...Na catedral da minha alma, e em todas as possibilidades de remissão.
Em novos Céus e em novos Princípios.

De resto, sei que o tempo escasseia. E espero que se eternize. Mas temo que tal não possa vir acontecer.

E sonho em realidades onde pudéssemos ser felizes.
Mas não acredito, apesar de querer acreditar.

Tens qualquer coisa de profundamente parecido com ela. Ainda não descobri bem ao certo o quê. Mas também não sei se quero descobrir. O mistério é muito mais saboroso.

Parece-me que ela está profundamente chateada ou desconfiada de mim, tenho de ir falar com ela. Um dia destes... Mas também, como tu própria disseste, estou muito estranho. E não entraste em mais detalhes. Afloraste a questão do FA, depois disseste que era diferente e ficaste-te por aí.

Engulo o destino, enquanto cometo todas as loucuras e quebro todos os votos. Como se fossem filamentos de cristal sem outra razão de existência, que não, o serem quebrados.
Aspiro o ar rarefeito das montanhas perdidas, no pesadelo da poluição lisboeta no sorriso e no timbre da tua voz.
Dás-me ganas de amplexos! Largos, lentos, profundos. E não sei sequer porquê.

Encontro-me ante o necrotério da minha moralidade, e sabes que mais? Apetecia-me que existisse um grande incinerador que lavasse em chamas toda a presença de um putativo período de nojo.

Mas pelo menos sinto-me vivo! A arder em subterfúgios e cambiantes desconhecidas de aventuras loucas. E cada pulsação que passa, a cada contracção sinto que vivo um oásis perene antes da derradeira peregrinação.
Sabias que é isso que chamo à minha vida? Peregrinação. Tive de inventar um novo vocabulário, novas imagens e metáforas para designar, com propriedade, as sensações e vivências que tinha.

Adorei-te.

Como se fosses um sol e eu me afogasse em cada um dos teus raios luminosos.

Sunday, August 28, 2005

Não existe distância ou tempo, que o amor não abarque.

Amo entes que já não estão presentes, outros que caminham entre nós, e ainda aqueles que não passam de uma vaga abstracção – as gerações vindouras.
Se hoje existimos é porque alguém, em tempos idos e remotos, nutriu uma ideia alimentada pelo desejo. A noção de perpetuar-se através dos tempos, por intermédio dos descendentes.
É a vingança colectiva dos vivos perante a morte.
E amar implica tanto de proximidade como de distância. O espaço necessário para deixar ao outro margem de manobra de ser livre. Livre até para errar, porque os erros são as sementes dos sucessos futuros.

Os céus amam os pássaros como deve ser. Deixam que as suas asas e quilhas os rasguem e afaguem, quer seja no voo picado contra as rochas ou na paixão que se estende para lá do horizonte.
Os céus estão sempre próximos daqueles que neles navegam, assim também estão os nossos pensamentos envolvendo aqueles que acarinhamos.

Não tenho medo de despedidas porque amo demasiado os reencontros e estes são certos entre aqueles que se amam. Às vezes o caminho mais breve de regresso àqueles que amamos passa pela circum-navegação. É a própria distância física que assim o exige. Ainda mal foi a ancora içada e já estamos mais perto dos que amamos.

A saudade é um mistério luso, simultaneamente a ausência de uma presença e a presença de uma ausência. Direi mesmo mais, é a ausência de um presente que é o caminho mais curto para a presença desse mesmo ausente.
Tudo na vida é cordame, juta e sisal, justapostos e entrelaçados por Parcas ou Arcanjos.

Hoje sinto-me tão bem como se tivesse engolido um rio doce, mas que era absinto. E não há fada verde que me livre da indisposição.
Julgava estar a tragar o néctar dos deuses ou uma qualquer ambrósia, mas era só o açúcar em cima da colher. Pelo qual passava aquela acidez amarga.

Às vezes penso que as nossas mortíferas garras e presas não passam de pequenos espinho de rosa enrolados e presos, toscamente, a uma cruz. E que todos os muros e fortalezas que nos envolvem são um grande castelo de cartas apoiado sobre o às de espadas e a rainha de ouros, como se fossem dois pilares. E não há maior miséria!

Sinto-me como um ser de quatro dimensões a viver a três, ou o inverso, sem pontos de contacto, como um morcego num bando de pombos.
Apetece-me amortalhar-me em de gaze de linho cru e aspirar a mirra e a nardo, beber o somma ou a moska inversa.

E adormecer…esquecer, perder as memórias dos raios de sol e do cristal da vida.
Tudo me dói, na alma. O ser e o não ser.
Se tudo não passasse de uma ilusão!... Se tudo fosse alimentado pelo sopro da minha inspiração arqueando as velas desta minha embarcação, e não houvesse nem mar, nem portos de partida ou chegada, ou ilhas, felizes ou não…

Sinto-me como se o próprio Hades não pudesse com as minhas trevas. E Satanás e Lúcifer corressem à minha frente, apressadamente, fingindo não reparar. E todas as legiões de demónios saíssem desembestados com gritos de horror perante o que trago no meu interior.
Mantenho o nível, a corda tensa e esticada do arco entre Deus e o Demónio, no humano que sou.

E os ventos vêm beijar-me, com medo das pragas do sol e da noite, do trovão, do crepitar do relâmpago e do silêncio que ecoa dentro de mim.
Passo os dias a anestesiar-me porque dói demais.
É como ter uma otite e dor de dentes na alma. Tenho fome!
E todos os panteões fogem ante o meu urro de fome devoradora.

É hora da caçada?
Tenho fome de Deus.
Reduzo a teologia dos livros a esquemas, e trinco-lhes os ossos mais duros, reduzindo-os a pó e cinzas.
Aos mesmos a que adiciono o meu sangue e a bílis com traços de linfa e carne.
Quero carne!
Verbo!
Uma hóstia consubstanciada. E ser fogo! Um inferno de chamas, de Amor e paixão.
Ser sangue e água e pão, oásis no êxodo desértico de alguém, ou muitos.
Tenho fome, de ser instrumento do Dom que cala todos os demais.
Da Caridade.
De ser ágape.
...E receio continuar com fome durante muito tempo…

Sunday, August 07, 2005


Paisagem
O absurdo de toda esta vida é o permanente vaguear sem um vislumbre aparente de finalidade.
É como ser peregrino, e, a meio do percurso, perdermos o sentido e esquecermos a razão pela qual iniciámos a mesma.
É estar animado do esplendor de mil sóis em fúrias fotónicas.
É lançar caravelas e desejar fundear em todos os portos e praças comerciais que ainda não existem.
É lançar as sortes e velas, à rosa dos ventos, partir, e perder a altura das estrelas.
Portugal comporta-se como um país do absurdo. Sem objectivos, interesses ou estratégias.
Dói-me a alma!
Revoltam-se-me as vísceras com esta indefinição.
Portugal está geograficamente entalado entre uma das grandes potências da europa - se ainda não é, vai ser! - (a Espanha) e o mar do outro lado.
A mais adequado a fazer era encontrar uma ou mais países em condições de contrabalançar o peso relativo que Espanha tem (e virá a ter cada vez mais) na economia portuguesa.
Com a economia espanhola não vale a pena competir directamente. Não temos vantagens de dimensão de mercado, de recursos humanos, ou sequer quadro fiscal.
Seria a competição dum anão económico com a de um gigante.
Por outro lado não temos nenhuma potência a quem nos aliar para servir de contrapeso à influência espanhola no nosso mercado nacional.
Por diversas razões nem a França nem o Reino Unido estão disponíveis para aumentar a percentagem de investimentos que actualmente possuem.
A Alemanha está mais interessada nos países da Europa de Leste, onde esperam uma rentabilidade bem maior (quanto mais não seja pela geografia que permite o acesso a mercados gigantescos, pese embora o reduzido poder de compra que ainda possuem) do que a oferecida por Portugal.

Saturday, August 06, 2005


Olha, eu não sei o que é que pensas fazer, se calhar já fizeste. Daí ter encontrado o teu caderno, ó discípulo de Durkheim!
o melhor que te posso dizer é:
- Vai um copo?-
(não tem álcool, nem açúcar outro, que não frutose)
Parece-me que estás num processo de degradação mental absurda, talvez seja provocado por hipoglicémia.
Eu até compreendo que as mulheres são do caraças. Assim uma espécie de Demónio de saias.
"Mas não habia nexexidade".
Nocturno da Poesia
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Sou um recolector tramado! Outro dia, quando ia a entrar para o carro, perto das 20:00 horas vi um pequeno caderno, daqueles de capa preta, caído no chão do parque de estacionamento do Corpo Santo. O parque já não tinha praticamente nenhumas viaturas. Pensei que pudesse fazer falta a alguém e trouxe-o comigo. Podia ser que tivesse o número ou morada do dono.
Entrei no carro, atirei com o caderno para o porta luvas e esqueci-me de imediato do mesmo.
Ontem, fui buscar uma caneta ao porta luvas, e vi-o. Folhei-o mas não tinha qualquer contacto, só texto corrido, texto e mais texto e mais texto.
Gostei do conteúdo e resolvi partilhá-lo com outros neste blog. Ao autor do mesmo só me resta desejar que, se algum dia passar por aqui, se acuse. O mesmo será imediatamente devolvido.
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Vazio, silêncio e sombras na penumbra que cercam-me num amplexo estranho, gelado.
Sombras que abraçam, mordem e sufocam como o abraço de uma gigantesca jibóia.
Mas não estou infeliz. Antes bem pelo contrário. Estou grato a Deus e ao Mundo por te ter tido junto a mim.
Por todos os momentos de felicidade, pelos riso e abraços. Pelas loucuras, pelos passeios, pelas conversas… por nós. Por termos sido.
E isso, ninguém nos pode tirar.
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E quanto ao resto. Quanto ao tudo que seremos, ou não, porque está oculto pelo véu alado do futuro, resta-me a esperança de continuarmos imersos nesta valsa que é a vida.
Pensei que era desta vez que tudo terminava.
Dei-te a oportunidade de ser eu a acabar. E ser o mau da história.
No meu imcompreensível silêncio gelado, pétreo, lancei as sortes.
"rien va plus"
E disse-te num único fôlego seguido, sem interrupção, como se vomitasse a alma, ébrio de emoções:
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Que trinta mil bênçãos te protejam!
Não percebeste nada.
E eu, terei percebido?
Agradeço a todos os ventos que te trouxeram até este meu porto
Parece que estou a morrer. Mas estou cheio de amor e gratidão.
É que, na verdade em verdade, não existe nem passado nem futuro.
Para mim existes sempre. Num perpétuo eterno-presente.
E isso ninguém me pode tirar.
É como ter bebido água da fonte, quem me poderá tirar a frescura?
Apetece-me rir! Rebentar a rir! Apesar de tudo, e da dor.
Valeu a pena! Literalmente.
O sol escorre-se-me por dentro de mim! E eu derreto-me, por ti.
E amo-te tanto!
Mas o meu amor é livre e não exige grilhões, nem prisões, nem correntes.
O meu amor não exige a tua presença. Na verdade, nem sequer a minha...
O meu amor é como o voo solitário, nas alturas, como o da águia.
E perdurará.
-E dito isto, inspirei longamente, enquanto tentava conter o passo do batimento cardíaco e manter o controlo em geral. Puxei do maço mais próximo e afaguei a roda do isqueiro, volatilizando o gás que saía numa chama azul. E desta chama azul criei uma outra vermelha no meu cigarro.
Após umas quantas breves passas que pareceram eternidades, disse ainda:
Na verdade, o meu amor está inscrito nos elementos e no éter.
E como tal, existirá para sempre, muito para além da tua ou da minha existência
Vimos pores-do-sol? E em quantidade suficiente? Mas guardo em mim a memória dos que vimos, como aquele em Sintra, e daqueles que ficámos por ver.
Enfim. Tudo é energia e pendular.
Os semelhantes atraem-se, e isso é tão certo quanto os diferentes repelirem-se.
Mas isso tu já sabes. Embora às vezes não queiras acreditar. Estás no teu direito, quando se vem até aqui, isto é à terra, tira-se o bilhete e paga-se o preço.
Estás no direito de não quereres ser incomodada com a verdade a todo o tempo.
Estás-te a divertir no mundo das ilusões, que importa a verdade?!
...
...
...
Devíamos festejar!
Os mil trovões e o seu ribombar!



Admito que pode ser demais, e até talvez destruidora a forma como amo.
Mas é a única forma de amar.
Deus também te ama assim. Odiar-te-á por isso?
Ou quererá a tua ruína?
Ou quer-te-á mal?
Então porque é que exiges que eu seja um laço e uma prisão que não sou?
De todos os homens que conheço, talvez eu seja o único verdadeiramente eremita, louco e profeta da minha própria destruição. Mas porque é que eu cederia a uma vontade outra que não a Divina?



Aceito-te tal qual és. E na verdade é assim que te amo.
E na verdade é assim que deve ser.
Mas tudo, claro está, é uma questão de dever e haver, na cristalina matemática do Banco Universal S.A.
Julgas que brinco?
Não, asseguro-te que te amo como no primeiro momento em que te vi, ainda com os outros olhos. As coisas é que nem sempre funcionam como nós gostaríamos que funcionassem, e há as benditas leis a cumprir. É claro que podia quebrar essas leis. Aliás não é essa a minha especialidade? Mas o preço, acredita-me, não o estou disposto a pagar. Se me envolvesse só a mim... Pagava-o, com a loucura que me é característica nestes assuntos.
Mas num caso destes, o preço é alto demais para ti e para mim.



Somos duas chamas, que chisparam em conjunto em memória do Fogo donde provieram. Bendito seja o nosso encontro e a Luz que dele se gerou, bem como o nosso futuro reencontro, e a Luz que dele se Gerará!
Parece-me que não sou má pessoa. Mas sou de facto um pouco bizarro para os dias que correm, espero que não me leves a mal pelo que sou. Mas se levares, está bem.
Ainda assim, tens a minha bênção. É que ela não depende em nada daquilo que tu pensares. Sou livre de te abençoar, ou amar, como quiser. É um direito Divino ao qual me arrogo e do qual não prescindo.
Tenho muito que agradecer ao mundo! E muito que agradecer-te a ti.
Obrigado!
Pelo que foste e pelo que és. Por quem serás.
Principalmente porque és.
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Impunha-se que tu me agradecesses também. Mas deves estar magoada e não o deves querer fazer. Paciência! Se calhar nem sequer vês motivos para isso.
Tanto pior!
Como um heroínomano, ficarei na fossa, na depressão, na merda, no esterco. Novamente vou ficar sem vontade para nada, nem ler, nem ver televisão, nem sair, nem nada. Nem mesmo existir… Abandonar-me-ei àquela sensação de exclusão, de estar só neste mundo, como estaria se estivesse num deserto. Aquela sensação de se estar dentro de uma prisão, em que as grades somos nós mesmos e a cela é o nosso corpo.
Só que será mil vezes pior, todos os fantasmas do outro lado vão aproveitar a ocasião para me atacar, e as Vozes vão sussurar: - Mata-te! Mata-te! – e a Visão vai-me mostrar a tua felicidade com outra pessoa, bem como uma arma metálica carregada e pronta, na minha garganta, com o gosto adstringente do metal. Seguir-se-á o barulho em slow motion do mecanismo do gatilho, do percursor fulminante... Até... -Rebentar! -Até eu rebolar com as mãos nos ouvidos, e com os olhos fechados e gritar: - Parem! Chega! Mais não! -E ficar um farrapo! E não comer durante uma semana, nem dormir de noite com medo das sombras e dos pesadelos. E entrar em torpor, não tomar banho, nem fazer a barba. E ficar semi-possesso!
E depois, como sempre, reerguer-me-ei e atacarei todas as sombras e todos os demónios e derrota-los-ei a todos, com a Graça de Deus, -até ao dia!, -(mas não será este).
E nesse dia, voltarei tomar banho, a fazer a barba, a vestir uma roupa decente e sairei para a luta!
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Só que é cada vez mais difícil. Tendemos a tornarmo-nos semelhantes ao que nos rodeia. E quando se anda tempo demais com o abismo lado a lado. Bem, já se sabe…
Na verdade, acho que não conheço alguém mais suicida nesta existência.
Mas também te posso assegurar que ainda por cá estou!
Sou mais indómito e resistente que o próprio Lúcifer
Não são meia dúzia de pendurados que me farão dobrar. Tentei sempre proteger-te desta minha faceta. Nem sempre terei tido sucesso, por isso apresento as minhas desculpas. Mas pelo menos neste aspecto estás imaculada. Embora tenhas caminhado mais perto do inferno do que aquilo que julgas.
De qualquer forma, ao Demo o Inferno!
Eu quero é tomar os Céus de assalto!
É o meu objectivo.
Ainda que tenha de morrer, ou pior.
Mas também, tanto faz.
Acabaste de chegar.
Não parece ser importante
E também não quero saber. Que se lixe, ou dane ou outra coisa qualquer. Maldição, não quero ter que enfrentar nada nem ninguém. E muito menos a ti. Que se DANE!
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Perdi-me da busca de mim. Quem me acode, neste vale escuro, sem bússola nem lanterna?
Sem mais solução, beijo por fim, a escuridão que está fora e sai de dentro de mim.
E é neste transe de dor e medo e espanto, que, como por encanto, encontro a pedra e a faísca, tornando-me em pira e sol, estrela de mim mesmo.
Se os cavalos estouram, as águas muitas serpenteiam. Se numas muito cavalgo, noutras por reflexo vejo.
É nas trevas que à luz, se dá o milagre da multiplicação, e no nadir solar desta noite de perdição, subo os degraus de cristal, do dia de bênção em que se tornou por transmutação.
Mil naus em noites com estrelas sem altura, e o astrolábio não me fala ao ouvido, é mais sábio e cala. Mas o resplendor cresce e ilumina, cessando a dor da neblina. Pelos juncos chego à minha sepultura, e olho-me nos olhos.
Contemplo o sarcófago da minha existência...